Haikais em duplo sentido

 

Caixinha de música,    /    no baú do esquecimento,

tem dança de Colombina,   /   tem choro de Pierrô,

num palco inexistente   /   num canto de parede.

(O.Santos)                                   (O.Santos)

Estou avisando.

Quem não quiser ouvir,

tape o sol com a peneira.

(O.Santos)

 

Uma maria apenas

é mais do que preciso

para ser feliz

(O. Santos)

Quem aposta

no impossível

perde o tino.

-o-

 

Tem gente que se acha

o máximo

quando é apenas blefe.

Quem pensa que sabe

quem eu sou

não imagina quem és.

(O. Santos)

Devo perdoar

e esquecer.

Não consigo.

-o-

 

Poesia, deusa descalça,

não precisa

de títulos de nobreza.

-o-

 

Não venham me dizer

como escrever.

Não vos devo nada.

-o-

 

Abraços:

cobras mansas

e macias.

-o-

 

Meninas da Rua da Palha:

tristes como

folhas de outono.

Em cada poema

há um eu-lírico

preso no instante.

(O. Santos)

Quem tem anjo-da-guarda

não se cobre com lençóis

enquanto dorme.

-o-

 

Os bebês-ternura

não sabem ainda

por que nasceram.

-o-

 

Os dias passam...

passam... passam.

As noites também.

-o-

 

Não faço mal

a ninguém.

Digo adeus.

-o-

 

Se não é possível

dizer a verdade,

é melhor mentir.

-o-

 

Abs.

O. Santos

 

Umbigo, quando sujo,

fala mal

do mal-lavado.

(O. Santos)

Adeus: palavra simples

demais para uma dor

tão profunda.

-o-

 

No carnaval,

mostra-se face

verdadeira.

-o-

 

Há um rosto

-na taça de vinho-

que o sóbrio tenta esconder.

-o-

 

Manequim de mini-blusa,

em vitrine de loja,

não usa calcinha.

-o-

 

Não venha me dizer

que inda me ama.

Não acredito.

-o-

 

Quando alguém

me diz: -Olá!

eu respondo: -Oi.

-o-

 

Saia do meu caminho.

Meu carro é veloz.

Zero quilômetro.

-o-

 

Abs.

O.Santos

 

Quem gosta de mim

tem que me aceitar

como sou.

(O. Santos)

Livros são páginas

em branco

que alguém preencheu.

Há quem pense de mim

o que sou.

Engano. Não sou.

(O. Santos)

Crianças tenras:

alegres passarinhos

que fazem pipi na cama.

-o-

 

Animais torturados:

feras indignadas

que perderam asas.

Quem quiser me ver

me procure nos longes

dos pombais.

(O. Santos)

A casa 

é abrigo,

e não prisão.

-o-

 

Animal-homem:

o único que se diverte

no circo da morte.

-o-

 

Se animais domésticos

falassem, diriam:

-Não.

-o-

 

Abs.

O.Santos

 

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